sobre um livro de rodrigo 

 
 

Laura  Salles Pereira Pinto

 

 

 

Ganhei de presente da minha filha, Paula, Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo de Souza Leão (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, 78 págs.). Devoramos o livro juntas em uma noite, lendo alto e discutindo cada parágrafo dessa obra-prima do Rodrigo, quando surgiram muitas perguntas, muitas dúvidas e muitas curiosidades dela, e minhas. Mesmo trabalhando num Centro de Apoio Psicossocial (CAPS 3), onde a maioria dos pacientes não são tão organizados como o Rodrigo, vi no livro uma fonte de inspiração para o meu trabalho. A maior parte dos pacientes psiquiátricos que hoje participam do CAPS, foram doentes cronificados por instituições, onde só o Haldol e o Akineton eram o que os levavam a se sentir seres pensantes e organizados.

Chegando ao CAPS no dia seguinte, com o livro debaixo do braço, surgiu a dúvida e o medo. Como mostrar esse livro, como discutir esse livro, como começar um trabalho com esse livro? Confesso que ele ficou um bom tempo na minha gaveta. Lia e relia. Resolvi fazer um grupo de reflexão com um pequeno número de pacientes e suas famílias. Ouvindo os familiares e trabalhando suas questões com o medicamento, a introdução desse paciente dentro da sociedade e dentro de casa, o convívio com os vizinhos, com os parentes, enfim, como conseguir essa integração, que é a principal questão e medo dos familiares. Consegui um gancho: conversar com os pacientes sobre os temas que a família me trazia. Assim, eles me mostraram outra questão. Me perguntaram: "qual  é o nosso problema real?". "Somos assim?". "Será sempre Haldol Decanoato, Akineton, Fenergan, internações e sempre será?". "Não tem como mudar?". A partir daí, juntos, procuramos terapias como jogos, pintura, arte, música, dança, exercício físico. Consegui transformar uma paciente em minha assistente, e ela, de jaleco branco, luvas e máscara, conseguiu dar banho nos outros pacientes. Agora, penteia os cabelos, tira o resto dos piolhos — que são resquícios das internações —, e vigia a hora da minha alimentação, muitas vezes esquecida, por estar conversando com muitos que me cercam, para perguntar se um dia vão voltar ao normal. E eu respondo com muitas dúvidas, como eles: "o que é ser normal?".

O livro de Rodrigo é uma inspiração para todos os profissionais que trabalham em instituições psiquiátricas. Agora, mais familiarizada com os pacientes e familiares, vamos começar a introduzir o livro no nosso grupo de reflexão. Tenho certeza de que vários outros livros vão surgir, assim como já surgiu uma nova assistente social, com uma nova percepção, depois desse livro. Claro que falta muita coisa. O governo não nos apoia com medicação, mão-de-obra preparada para essa nova visão, material didático, material para as oficinas, casas adequadas para trabalhar com esses pacientes, etc. Mas temos que acreditar. Eu acredito. E o Rodrigo me ajudou nisso.

 

 

 

Laura Salles Pereira Pinto é assistente social e mora em Campos dos Goytacazes/RJ.

 

volta <<<