antologia

 

parte 1

 

há flores na pele

 

 

a imobilidade diante dos fogos

 

parado, o silêncio me confunde

imóvel, teu laço de amizade

toda a mobilidade parada ainda

 

só pra te ouvir soltar cachorros

e engolir toda a pólvora de luz

cuspir o nosso amor em fogos

 

 

 

 

para navegar em silêncio

 

cardumes de silêncio

navegam linearmente

entre as minas d'água

 

lá iam nossos peixes

quando um toque

provocou a explosão

 

você me falou morte

perdida em detalhes

feito explodir: gritou

 

gritar, não dizer nada

melhor se dar a outra

de outra forma minada

 

 

 

 

a parteira

 

em seu oculto olhar

atrás dos óculos rayban

estará o lúgubre de orelhas

a fauna habitual de um olho

e a natureza de um ser humano

 

em seu oculto olhar

há uma mulher que ama

há um homem que desaba

e um triste sonho de viver

com alguém que não lhe ama

 

em seu oculto olhar

há um oculto arco-íris

e um velho aeroilis de vovô

e a remington de everaldo

e muitos sonhos em que serei

 

em seu oculto olhar

há uma louca conjuntivite

e uma barriga de filho vindo

e uma bacia de água

e muitos sonhos em que sou

 

 

 

 

lágrima

 

de verter-te inglória

de seguir minha mão

em tua trajetória

rumo a todo, o chão

 

a encher-me a vista

do sal, suprema dor

ó lágrima de espólios

arranque meus olhos

 

 

 

 

o crescimento do leão

 

leão caminha

e altivo

percorre o cômodo

de um corpo

com um embasamento

de quem encarneceu

seus dentes

e hoje vê corujas nos seus olhos

gôndolas de pesadelo

 

 

 

 

poema cigarro

 

Na ponta a brasa

Dentro a fumaça

 

Ao lado o maço

Uma tragada

 

No pescoço

O laço da gravata

 

Ou quem sabe

O câncer mata

 

 

 

 

poema mãe

 

para Sylvia

 

graças a mim

a vida te deu

pontapés n'alma

 

dores na coluna

teto subindo boca

perdida na fala

 

protegi a fauna

soltei os cachorros

quando flores dar?

 

graças a mim

engaiolado de ti

serás garça ao fim

 

 

 

 

astronauta

 

a João Silvério Trevisan

 

Estar preso

Não é ficar

Obeso

 

Estar preso

É não

Se alimentar

 

Ver filmes

De ficção

Em casa

 

Sonhar

Com a nasa

Star livre

 

Astronauta de si

 

 

 

 

pólen

 

 

de pérolas

 

Os porcos fartos ainda mastigam

e trituram ao vento

expandindo a distância

entre os beijantes casais corpulentos

 

Perplexos

ficam os versos que o vento esculpe

nas encostas recalcitradas de macacos

e lesmas

caminham rapidamente

 

As tartarugas

tardam a morrer

 

Quantos porcos matar

até encontrar as pérolas?

 

 

 

 

no litoral do tempo

 

 

dilúvio

 

1

Seria uma honra ser escultura,

Mas me moldaram vivo e

Eu sou tudo e nada posso ser.

 

Tenho que olhar sempre o nada,

Foi me dito que tudo é sempre.

E assim vi as caravelas chegando.

 

Vi os gerânios crescendo sem

Poder tocar ou sentir o aroma.

Cheiro só de bosta. Os mendigos

 

Sempre deixavam seu quinhão

Aos meus pés. Até que um

morreu no fogo dourado

 

Desde então alguns ministros

Passaram a defecar aqui também.

Neste bronze de sardas .

 

Eu esperei a chuva. Eu fiz

A dança da chuva dentro de mim.

E me libertei num dia negro.

 

 

2

A água desaguou chuviscada.

Pirâmides de cabeça para baixo

Era mais merda. Era o dilúvio.

 

Assim saí da merda para merda.

 

 

3

Pudera Deus negar os fatos

E vagar pelas pedras portuguesas.

Mas tudo está sujo até o ápice.

 

Deus não pode ser tudo todo dia.

E não adianta eu me iluminar.

Acender um fósforo é perigoso.

 

E não existem gravetos e pedras

Para descobrir o fogo novamente.

Para moldar um poema na pedra.

 

Além de mim o que serei.

Pra que me libertar numa prisão?

A maior clausura sou eu?

 

 

4

Dentro do escuro meticuloso.

Um enigma nasce negro.

E um enigma negro nunca

Deixa de ser um vazio eterno.

 

Deste lugar em que o nada

É uma riqueza tão profunda

Quanto um ânus sujo profundo,

Nasce envergando o lábaro

 

O último dos homens vivos.

Poderia ser um Prometeu.

Ou um Cristo totalmente ateu.

 

Mas o que ele é além de Deus?

Depois do Dilúvio, quem é

este Noé sem sonhos medonhos.

 

 

5

Paira sobre o planeta. Paira luz.

E luz fecunda. Fecundo pus.

Ferida linda. Infectando tudo.

 

Ah, se eu não pude viver

De que vale o mundo? Bonito.

Ou imundo. Mundo inundando.

 

Queimando. Queimando.

Olho as bolas de fogo

Colorindo o infinito dos olhos.

 

Asas e Asas estão voando.

Voam e mergulham no mar e

A natureza ama viver e vive.

 

Quem é aquele homem? Noé?

Em que barco guardou os bichos?

Ora. De que passado vim?

 

(Um de nós vai virar mulher!)

 

 

6

O ódio nasceu de uma senda,

Nesga aberta pela primeira vez

Em que trocamos olhares.

Foi como uma luta de boxe.

Nos nocauteamos. Éramos o resto.

 

Seus olhos pareciam cobras

Meus olhos estavam envenenados.

Nossa viúves esticou o nada

Que passou de horizonte a infinito.

Olhei o mar revolto. Tudo fezes.

 

 

7

O planeta era pequeno dedal.

Ele foi para a outra parte.

Golden fugiu para o fogo.

 

Fiquei a penetrar o passado

Dias via caravelas. Dias nada via.

Dias cotovia. Dias preâmbulos

 

era o que eu não queria que fosse.

Aonde estava o azul. Deus havia

Sumido, e a merda potável parecia

potável.

 

Eu vivia olhando para fora quando

Lá dentro era que estava toda flora

De angústias, pesadelo e medo.

 

Um homem abandonado. Deixado

Rosa branca no lodo. Nódoa.

Laivo roxo na pele branca da luz.

 

 

8

Enquanto me prometia não ser

Nada que pudesse me destruir,

O Sol nasceu e de tanto olha-lo

Fiquei cego para ver o que eu era.

 

Veio chuva e natureza me banhou

Como quem tira um animal branco

De uma poça de petróleo derramado

Na baía de Guanabara, ano 2000.

 

E cai bebendo água doce. Bebendo

Turmalinas, cegonhas, garças,

Cisnes, bem-te-vis, araras, papagaios

E alguns corvos que me disseram:

 

"Tudo é negro". Eu não acreditei

E eles foram dizer ao outro,

Que tomasse cuidado comigo.

Que nunca nos tornaríamos amigos.

 

Que poderíamos nos amar

Mas tanatos iria nos destruir.

Alisando feito madeixas d'óculos

Nossa medusas de cabelo

 

Olvidei o negro, olhando as rosas

Que começavam a brotar cada

Vez que lembrava de Deus e

Eu agradecia. Eu nada era ainda.

 

Cada palavra que eu dizia virava

Uma cor. O papel de parede

Ao meu redor ainda sangrava.

Para que servem paredes?

 

Não havia portas. Só paredes.

Em algum lado comia concreto.

Logo vieram as maças e peras.

Amoras e uvas. Morangos.

 

Quando viria o pecado original?

Quando Deus seria um animal?

Quando eu iria ser mais que eu?

Quando tirariam uma mulher

 

De minha costela? Quando o

Infinito ia mudar de coloração,

Quando ia voltar a ver minha

Imagem e a de Narciso no lago.

 

Quando viriam os ciclones, os

Tornados, os furacões. Por

Enquanto tudo isso sou eu

Girandolando sem cuspir fogo.

 

 

9

O mar de capim fazia barulho.

Podia ver as vagas surgindo

E destruindo formigueiros.

 

Havia também a lembrança

Destruída, assim apenas

por lembrar d’outra existência.

 

(As pipas coloridas galgavam

o céu. O tosa ia acontecer

qualquer momento. Dá-lhe

 

vento). O que é a infância?

É uma outra existência.

São as pipas de ontem sem

 

os ventos de hoje.

O eu é um ladrilho de nuvens.

Onde estão as pipas? Onde?

 

 

10

Preciso de sonhos amarelos

O Sol sai de sua moldura.

O prata veste a noite escura.

Quando Deus será quem quero?

 

 

11

Travo guerras colorindo folhas,

Caídas no abismo que construí

Nas verdades que ocupam

Todo espaço nessa mente crua.

 

Aqui vejo chamas e água.

Tanta abundância para nada.

Aos poucos isso aqui vai virar

Um paraíso, pelo menos é

 

Isso que passa agora pela

Cabeça do poeta que escreve

Este verso. Assim não fujo

De mim e minha necessidade

 

De dizer logo tudo. Antes que

O abismo cresça tanto e eu

Não possa mais saber

Se estou dentro ou fora dele.

 

 

12

Passei a comer tamarindo

E comecei a ver alicerces

E pilastras sangrando fogo.

 

Engoli aquelas imagens ígneas.

E passei a pensar se eu estava

No inferno. Mas logo nasciam

 

Flores e beija-flores e novas

Dores. Tantos quantos possam

Imaginar sem imagens.

 

 

13

Saudades dos vincos que não

Terei no rosto. Ravinas nascem

 

Meus olhos sangram o azul.

Ninguém me idolatra agora.

 

Ninguém me ignora também.

Desde que ganhei carne e toco

 

O mundo e o que restou dele,

Ninguém nasceu além de mim.

 

 

14

A pior prisão é a mental

Fazer parte do indivisível.

Ser escravo da alma abissal.

E não poder ver o invisível.

 

Antes eu só tinha o infinito.

Tenho tudo menos o horizonte.

Hoje o deserto é meu rito

E tão meu, inesgotável fonte.

 

Fonte. Ponte entre mim e Deus,

Se é que ainda acredita em mim.

Tudo aqui é tão meu de meus

Eus. Deus é criador ou cupim?.

 

 

15

Uma onda que se comia

Uma onda em meio à ventania.

 

Comeu também meu castelo

Abrindo uma boca de 10 metros.

 

Quando será que quis existir?

Nas coisas que eu fiz ou sou.

 

Ser é tão pouco e não ser, zero.

É o Zero. Não ser é zero. Pode

 

Ser zero, zero, zero. Tudo é

Zero. É o fim e o início.

 

 

16

A garça interpreta em silêncio

Sua vocação para o branco.

 

Me perco naquele voo que

Submerge no lago dourado

 

De Sol. A natureza se esconde

Para sobreviver. Eu dou um

 

Grito e minha voz estoura

 

 

vulcões

 

1

abrolham

vulcões

 

pela pele

erupções

 

compõem

o amarelo

 

elos de luz

pus em pus

 

 

 

 

2

cavalo sem

crina branco

 

cuspindo

falésias de

 

seda

 

turquesa

todavia mar

 

bordejando

aspergindo

 

gotas

 

água

de calor

 

vulcânica

quase ar

 

quasar

 

pulso

móbiles

 

redoma

aquário

 

de fumaça

 

cospe

sombras

 

cadências

cardantes

 

cabelos

 

crinas

d'éguas

 

bolas

de sabão

 

explosão

 

 

 

 

3

fios de ouro

preto

 

virando olhos

claros

 

fumaça, fuligem

cinzas

 

apenas tragadas

d'eu(s)

 

 

 

 

4

deitado

olho céu

 

magma

jorra

 

da jarra

— corpo

 

copo

de cinza

 

 

 

 

5

gatos

lambendo

 

a pele

de filhotes

 

morreram

na guerra

 

dromedram

meus desertos

 

gatos

miragens

 

nesgas

de aurora

 

intermináveis

dores

 

erupções

e mordiscos

 

vulcões

bons apenas

 

quando

mortos

 

comendo

crepúsculos

 

 

 

 

6

brisa

maquinal

 

matina

eterna

 

vento

de bolso

 

barcos

velejando

 

miragens

aquosas

 

— sopro

endêmico

 

mixando

suores

 

odores

espinhas

 

rugas

meleca

 

despojos

restos

 

andrajos

orgânicos

 

verdadeiros

oceanos

 

de frios

sonhos

 

pesadelos

e inferno

 

 

 

 

7

rastafári

safári

em mim

 

elefantes

trombetas

esporrando

 

sangue

saliva

seiva e pus

 

 

 

 

8

via Delfos

delfins

e hienas

 

e sua cria

de corvos

amestrados

 

bicavam

meu ventre

arrancavam

 

palha

pulhas, pilha

palhaços

 

 

 

 

9

por dentro

contenção

 

por fora

explosão

 

assim me

defino

 

sou um

vulcão

volta <<<
>>> continua