AS FLOrES SÃO As PRIMEIRAS

MUlHERES QUE VEMOS 

 

CRIANÇA

 

Uma mulher ainda criança

Desconfia dos balanços

Onde brinca a Verdade.

 

A Verdade nunca será

Encontrada. E a sua única

Importância existirá

 

Para a mulher que a descobriu

Que não existe Verdade

E Deus tem a verdadeira fé em si.

 

Pois existem muitas verdades

Que as crianças aprendem

Pra nunca mais aprender

 

A deixar de ser criança.

Estas são as verdades de mulher

As verdadeiras verdades.

 

 

 

 

MÃE

 

A compaixão que guardo

Nas latas de coca-cola,

O ar que me sufoca,

 

Sobrevivente que fui

Do passado e do presente.

E do passado que quis dar

 

Faz mãe àquela flor mais triste

Onde cada lágrima fincará

Uma cicatriz na alma do amor

 

Maior da mãe por um monstro.

 

 

 

 

TIA

 

Quando ficou doente

Só aí viu o que é ficar doente.

 

Só com a Morte dos amigos

Viu o que era a Morte.

 

Antes tudo era aula para surdo

Sabia que eles melhorariam,

 

Mas nunca ouviriam Chopin.

 

 

 

 

ADÉLIA

 

Adélia tinha uma incompetência

Maléfica tão grande

Que se enrolava entre as panelas

Do bem e do mal.

 

Muitas vezes ficou comigo

E só me abandonou quando todos

Me abandonaram.

 

 

 

 

BAZINHA VÓ

 

O nervosismo deitado ao seu lado

No calor de um amor maior diferente, mas sincero;

 

Ajudou-me a aquietar-me e inclusive,

Ver os seus defeitos com outros olhos.

 

 

 

 

IEDA VÓ

 

Comia coisas pequenas, minúsculas.

Precisou do vovô pra ser carregada no colo.

 

E jogou biriba no gramado verde do maracanã

De sua mesa da sala.

 

 

 

 

BISA

 

Com suas pernas de elefante gordo

Mal se levantava da cadeira,

Mas sempre tinha um dinheiro,

E comprava balas de Cabinho.

 

Foi ficando velha e o dinheiro diminuía enquanto

A arteriosclerose aumentava.

Só não diminuía o nosso amor por ela e vice-versa.

 

 

 

 

CRISTINA

 

Ela talvez não mereça um poema,

Pelo mal e o bem que me fez merece

Que eu diga: flores eu vi nos seus cabelos

E eram gigantes

Como suas mãos de travesti.

 

Foi a mulher mais linda que eu não fiz

Nada com ela.

 

 

 

 

JAQUELINE

 

Deu-me tanto o olho,

Que fui no azul do in-

Verno ver o inferno só

Em pleno verão.

 

Foi para Nova Iorque

E me disse oi.

 

Respirei toda a luz

Daquele azul.

 

Preocupei-me com a sua

Voz, mas disse:

Adeus. Eu volto pra sempre

 

Nunca mais.

 

 

 

 

SUZANÃO

 

Na virgindade de teu eu fiquei.

Ficaste comigo em riste

Tanto quanto quiseste um dia até

 

Também você dizer que eu tinha

Tudo. Mas ela não.

 

Por isso mais um fim azul nos olhos

Do infinito cheio de um sol só.

 

 

 

 

MARINA

 

Eu choro de tristeza todo dia.

Todo dia eu choro porque amo.

Mas só acredito no meu amor quando

Marina desenha-me e guarda meus sentidos

Nos poemas de minha infância.

Ela é o megafone da família quando eu fico assim

E ninguém quer mais falar comigo.

Nem a noite não termina. Nem o dia e agora é noite.

 

 

 

 

MARIA DULCE

 

Dulce me gosta diferente,

Irmã e imã de Marina.

 

Atua em flechas e flashes

E faz hematomas nas tristezas.

 

É forte porque é uma flor ou

Uma princesa?

 

De sangue feita do Leão,

Leoa que ruge no vácuo tolo

 

Do subsolo do passado.

O presente é o melhor amado.

 

 

 

 

ANÁLIA

 

Lavou tanta fralda

E fez tanta comida

E navegou tanto

E viu tanto surfista de trem morto

Que eu só podia

Dizer-lhe obrigado.

 

As ondas são gigantescas

E também há ressacas

Dentro de Capitu.

 

Dentro de mim só há lugar

Para navegar no escuro.

 

 

 

 

OLGA SAVARY

 

Meu primeiro tostão de poesia.

E um lindo Sol dentro do Hospício

E papos de fim de noite

Iguais vampiros sedentos de espelhos

E indiozinhos vermelhos.

 

Olga Savary na alga da noite

Me deu tanto ar

Que balão fui para fluir

E voar além das estacas fincadas

Nos peitos do Drácula.

 

 

 

 

ANDRÉA

 

Complemento inquieto de mim

Replemento exato do vértice em que me cabe

Flor carnívora que me bate

Com um veludo ciliado

Seus olhos são grandes e seu amor é ávido

Como a vida

Tento ser repleto: será que a completo?

 

 

 

 

SILVANA GUIMARÃES

 

À noite silvanas dormem

Junto com as anas

Algum nenê nana

Alguma iguana ama

E a minha amiga Silvana

Nunca se engana

 

Aos poucos tudo se apaga

E a história que foi contada acontece

Como gotas de chuva acabada

Fico aqui, inerte,

Ouvindo a amiga Silvana

Sentindo que tudo se repete

 

De dia ligo pra ela

E ela sempre está

E sempre me faz um agrado

Com ela tenho cuidado

Não quero ferir a amiga

A vida já é um boxe

 

Todos os seus galos não brigam

E cantam às seis da manhã

Que coisa bem resolvida

Um galo que se assume tantã

Uma cadela que fala

Um cachorro que sorri

 

Silvana não se entristece

E tece a primavera

Com o amor de nossa amizade

Que começou faz tanto tempo

E em outra vida não cabe

Esse amor que é muito mais que amor

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