Na vitrine: Rodrigo de Souza Leão e Rosa Pena em imagem original de Marina Kiselova

L'azur! L'azur! L'azur! l'Azur!

 

Rosa Pena

 

Para Rodrigo de Souza Leão

 

Dia dois de julho choveu céu, talvez para provar que ele nunca esteve morto. "L'Azur! l'Azur! l'Azur! l'Azur!". Era intocável, agora, não mais. O inferno de Rimbaud é aqui Rod, sempre foi. Caiu até um pedaço vermelho do arco-íris nos meus olhos, daí cismaram de ficar dessa cor. Essa chuva celestial não tingiu o mundo, o coitado continua cinza e feio, mas pintou os cachorros. Todos azuis! Ah, a batata de agora em diante será sempre frita (é o que se salva da vida). Sei que você e Baudelaire estão curtindo a liberdade definitiva, as pílulas não engolidas, o Jabuti que é você é bem capaz de levar: seu livro começou a vender adoidado, pois lhe imaginam rei posto. Deixem imaginar. Você é você, o poeta que engoliu o chip da poesia e dizia dentro da mais profunda esquizofrenia que a vida valia ser vivida pela quantidade de encantos, fato que nos aproximou tanto. Hoje, nós (os normais!) giramos numa desgovernada órbita em volta de um astro raro que abriga a delicadeza de ser, o lugar talhado para você. Certamente, você já encontrou seu cachorro de pelúcia! Um beijo nele. Dois em você.

 

 

 

07 / julho / 2009

 

Em 14 de julho, Rosa Pena escreveu:

 

Bruno, Rosa Pena e Rodrigo no celular da Rosa, em 2007

 

 

JÁ?

 

Se não ia voltar...

por que disse

até já?

 

[Saudades de você, Rod!]

 

 

 

LEÃO NA LUA

 

 
O fato, mais simples, mais correto é que você faz uma falta danada, cria um vazio sem lógica. Algum tem? Uma lacuna indefinível e eterna, um vácuo no planeta por conta de mais uma estrela no céu. Essa ausência deveria me levar a esquecer como era a sua presença! Mas não, existem seus versos, seus quadros, seus livros que não permitem que você vire memória, e provoca isso: essa falta ampla que rouba o momento cada vez que alguém fala seu nome. Essa falta que abre uma racha no tempo, que interrompe os rumores do mundo, que modifica as fases da Lua, que agora tem um leão no lugar de São Jorge e que dá ao luar um brilho azul. Brinco, ao redor dele, de imaginar que você não se foi. Assim, apesar de saber que não regressa, esqueço que partiu. 
 

12 / julho / 2012

 

 

 

Rosa Pena (Rio de Janeiro-RJ). Escritora, professora e administradora de empresas. Publicou PreTextos (Editora All Print, 2004) e Ui! (Rio de Janeiro: Editora Bagatelas!, 2007). Mais em seu site.

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