oS inumeráveis estados poéticos 

 

 
Fernando Ramos, Jornal Vaia
 
[Foto original de Cristina Carriconde]
 

 

Fernando Ramos – Rodrigo, o que me chapou mais no livro [ Todos os cachorros são azuis ], e vou logo dizendo, foi o sentido de perplexidade que você conseguiu imprimir à narrativa. Esclareço: o tanto que há de perplexidade na vida em si — e que tentamos dirimir passando do silêncio absoluto ao criar formas de comunicação — você trouxe para o livro. Outra coisa: a construção literária a partir de um mote fortemente subjetivo indo além da mera subjetividade e atingindo em cheio a minha subjetividade de leitor. Fala um pouco sobre as suas primeiras leituras e vivências, e depois produção literária, enfim, coisas que você queira destacar no aspecto pessoal e literário.

 

Rodrigo de Souza Leão – Eu sou esquizofrênico. Descobri isso — apesar de já ter sintomas desde os 15 anos — somente aos 23. Consegui me formar com 22, em Jornalismo. Queria ser locutor de rádio. Nunca tinha escrito nada, nem pensava em literatura. Meu negócio era ouvir rádio e ser DJ. Meu irmão comprou uma bateria e começaram os ensaios aqui em casa. Comecei a querer cantar. De locutor, passei a sonhar com o canto. Fiz aulas com o tenor Paulo Barcelos. Comecei a cantar na banda Pátria Armada. Toquei no Circo Voador, na Metrópolis, no Let it Be, no Made in Brazil entre outros: locais onde a Legião, Paralamas e Capital tocavam. Comecei a escrever letras de música. Foi meu primeiro contato com a escrita. Aos 18 anos. Depois passei a escrever poemas.

 

O livro Todos os Cachorros são Azuis foi parcialmente escrito (digamos que foi iniciado) em 2001. Depois de minha segunda internação. O que fiz foi mixar minhas duas internações. A primeira foi muito traumática. Fiquei num local chamado de Carandiru pelos internos mais lúcidos. Fui internado com camisa de força. Fiquei num cubículo. Uma jaula. A segunda foi mais light. Apesar de ter passado mais tempo internado nessa segunda vez. Ao mixar as duas experiências eu fiz uma catarse muito forte. Algo que busquei foi uma linguagem próxima a da loucura. Acho a poesia (de maneira geral) uma arte muito louca. Cheia de linguagem conotativa. Metáfora. Ao aproximar da poesia me acheguei também à fragmentação e à descontinuidade do trabalho contemporâneo com a linguagem.

 

Também misturei pessoas e criei fatos. Eu não sofro alucinações. Tenho sensações persecutórias. Sou portador de uma esquizofrenia específica, chamada atualmente de distúrbio delirante. Nunca ouvi vozes. Nem tive delírios. Achava e ainda acho que sou perseguido por agentes.

 

Meu irmão tem bipolaridade. Viu ETs na infância. É muito louco também. O nome dele é Bruno. Misturei coisas que ele fazia com as minhas coisas. A loucura ganhou mais corpo. Pude construir um personagem mais forte. Que tinha alucinações e havia visto ETs e tinha um cachorro de pelúcia e ainda havia engolido um grilo. Muito é ficção. Mas muito foi real para mim. Não vou lhe dizer o que é meu nem o que é dele para não tirar a magia da coisa.

 

 

FR - O ponto de partida do livro foi então a cartase? A primeira versão — antes de você ser contemplado com o prêmio concedido pela Petrobras para escrever o livro — já era assim prosa poética, narrativa estruturada formalmente, ou era uma escrita canalizada ainda pela catarse? Conta um pouco desse labor.

 

RSL - Antes de Todos os cachorros são azuis, escrevi vários livros sem uma linguagem minha e ao mesmo tempo interessante. Tentava a publicação e não conseguia. Essa voz diferente só pintou depois de eu ler trechos de livros e livros inteiros de escritores contemporâneos. Desde o início, tentava e não conseguia uma linguagem própria. Depois de insistir muito e depois de uns quatro livros escritos numa linguagem linear foi que pintou essa "loucura toda". Foi preciso muito trabalho com a linguagem. O trecho que mandei para a Petrobras foi o primeiro e o segundo capítulo. Já estava como ficou. Era como se tivesse possuído de um deus diferente. Não de um demônio que me atormentava, mas sim de um novo deus. Um deus pagão, muito maior que eu. Acredito em inspiração. Não fui eu quem escreveu o livro. Acredito que um Xamã me ditou. Alguma força superior me impulsionou a escrever. Foi diferente de escrever livros lineares. Fui sincero e acho que tive coragem de me expor. Expor meu pior e meu melhor. Escrevia todo dia uma lauda no Word. Sempre no mesmo horário. Depois que acordava. Os sonhos estavam próximos. Acho que essa "oniricidade" (essa proximidade) ajudou. Não consigo, quando escrevo, ter um controle exato do que escrevo. Simplesmente, não tenho processo criativo. Não monto mapas e nem escaletas e não faço pesquisas. Procuro ser o mais espontâneo possível. Como se pudesse falar tudo o que quero e contar uma história sem ter uma ordem. Não foi algo planejado para ser assim. Surgiu. Pintou. E como pintou, ficou. Tive uma ajuda preciosa de Leonardo Gandolfi e Franklin Alves Dassie [poetas], que são professores. Eles gostaram daquilo. Mais do que eu e me incentivaram a mandar para editoras e concorrer ao Prêmio da Petrobras. Leonardo foi fundamental nos dois capítulos finais. E Franklin me pentelhava para inscrever o projeto, que estava em andamento.

 

Não queria escrever um livro para que tivessem pena de mim. Sou muito nietzcheano para querer o sentimento de piedade. Fiz de minha vontade de potência mostrar algo com certo humor. Certo distanciamento. Certa visão crítica. O que iria acrescentar em mim mostrar-me como um coitado? Quis me afirmar pela linguagem. A linguagem que é o lance. Também não quis fazer uma apologia da loucura. Um elogio à loucura. Loucura é uma coisa muito desagradável, que só me faz mal. Mas tento conviver. Privo-me de muita coisa para me manter estabilizado. Acho que a comunicação que o livro está conseguindo deve-se a esse vetor linguagem x humor. Não quero pena. Prefiro que me entendam, mesmo que seja irracional e ulterior e sem explicação esse entendimento. Mesmo que seja via inconsciente. O inconsciente guarda muitos segredos. Estou virando Nise da Silveira.

 

 

FR - Literatura é a procura de liberdade. É o embate contra a perspectiva da morte. Pela poesia se pode chegar mais perto de alguma liberdade, alcançar uma liberdade relativa na vida. Você escreveu um livro que tem o tempo todo essa busca de liberdade. Ao final, no último capítulo do livro, ao criar uma linguagem digamos inumana, o Todog, que é a linguagem de todos os animais, um código universal, e que se for sentido, já está comunicando, já está valendo, enfim, você dá um desfecho surpreendente e coerente com o que propôs.

 

RSL - A liberdade só é possível na arte. Estamos sempre esbarrando em alguém para ser livre. O Todog é a libertação de linguagem. Como não tenho a mínima noção de línguas, fiz uma mistura de "coisas" que eu sabia sobre algumas línguas, sem ser um mestre no assunto. Não sou mestre nem na loucura. Aliás, nem sei de onde surgiu o termo Todog. É algo mágico, estranho e bizarro. A loucura é muito bizarra. A arte que eu gosto é bizarra. Estranha.

 

O inumano foi à conjunção necessária para que alinhavasse o texto e eu não deixasse todas as perguntas em aberto. O último capítulo tem certo tom de "historinha", mas é algo que expõe uma nova visão de religiosidade. De inumanidade. O Todog talvez seja uma das poucas coisas do livro que foram totalmente inventadas. Todo louco, ou a maioria dos loucos, tem uma religiosidade muito forte. Pensam que são Jesus Cristo. Sabia que com o surgimento de uma nova religião, estava no caminho certo para retratar os dramas que vivem as pessoas com esses problemas.

 

 

FR - E qual seria pra você esta nova visão de religiosidade? No que ela se aproxima e se afasta da literatura/arte?

 

RSL - A minha religião é a arte. Era descrente e não acreditava em nada superior. Eu abominava a metafísica. Era niilista e agnóstico. Ainda sou um pouco descrente. Acredito no ser humano e suas potencialidades. Jesus Cristo nunca disse que era Deus. Falava que era filho do "Homem". Acredito numa energia: em algo que nos faz viver. Numa força estranha no ar. Sou meio existencialista. Acho que todos somos deuses e podemos criar um mundo. Um mundo de dentro. Chamem essa força de Deus. Chamem de Alá. De Geová. De Jesus. De Ogum.

 

Não sei se existe céu. Não sei se fazendo o bem você garantirá um lugar melhor depois da morte. Gosto muito dos cachorros. Gostaria que existisse uma comunhão entre os bichos e as pessoas. O homem é um bicho. "Um animal que pensa / É um dilema / Um animal que pensa é um dilema". Creio que nunca conseguiremos responder às questões fundamentais da existência. Ninguém nunca voltou para contar de onde veio e para onde foi.

 

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". Sou a favor de uma religião que não julgue as pessoas. Que não as torne um rebanho. Uma massa disforme e teleguiada.

 

 

FR - Anteriormente, você disse que escrevia o livro todos os dias depois que acordava, e que uma certa "oniricidade" ajudou à escrita. Sim, você construiu uma ficção que pode ser lida/experimentada como um sonho, do qual o personagem, e também o leitor, procuram sair e ao mesmo tempo nele permanecer, tão envolvente é a poética. Ou seja, há a identificação, o embarcar na viagem poética da narrativa, e também o desejo de sair daquele "drama infernal" em que vive o personagem ("E depois, Rodrigo? O que fez do depois?").  Pra mim, esse é um ponto positivamente forte do livro: a realidade dramática do cotidiano (do autor/narrador e do leitor) subvertida pelo sonho, o delírio, a poesia. Mas não é um "ah só a poesia salva", nem um "precisamos transcender o cotidiano banal", mas sim o embate mesmo que vale por si. Se você quiser pode comentar um pouco esse meu comentário. E a pergunta: o Todog, a nova religiosidade apresentada, é uma certa utopia que você nutre, ou uma ideologia, o que significa ele pra você?

 

RSL - Você toca em aspectos muito importantes. Ser louco não é uma maravilha. Ter alucinações é uma barra muito pesada, pois não temos controle sobre elas. Aparecem quando querem sem pedir licença. Posso dizer que sou um esquizofrênico light, já que minhas alucinações foram raras. Quis dar ao livro uma escrita "alucinatória". É um grande sonho o que descrevo ou pesadelo? Creio que pra mim é um pesadelo, mas pros que lêem pode ser um sonho.

 

Nunca tive alucinações com Rimbaud e Baudelaire. Mas as alucinações que tive foram mais sensoriais como o medo de algo, a mania de perseguição. Só que é muito difícil eu descrever essa sensação. Ficou mais fácil colocar personagens como Rimbaud e Baudelaire. Fica mais crível também. Não que eu queira que acreditem que eu via essas duas ilustres figuras. Dois monstros sagrados da literatura. Mas foi a forma de colocar esse livro no mundo. Muitas coisas não têm explicação. Não consigo me exprimir com facilidade. Tenho até certa dificuldade de escrever. Pode parecer fácil, mas não é. Eu não faço plano. Sento e vou escrevendo. De modo que essa ambientação onírica é muito mais inconsciente do que consciente.

 

Quanto ao Todog: gostaria muito que existisse vida após a morte. Gostaria mesmo. Gostaria também de uma junção — após a vida — de seres com objetos, bichos, obras de arte. Um céu abundante. Rico. Um parque de diversões. Um puta parque. Melhor que a Disney World. Busquei explicações e não encontrei em nenhuma religião. Não sou tão místico quanto a maioria dos doentes. Mas tenho medo de morrer. Tenho medo de que tudo o que eu fiz seja em vão. Gostaria — já que não tenho filhos — de deixar um mundo melhor para a minha sobrinha Marina. O modo que encontrei foi denunciando, escrevendo sobre o que vivi.

 

Acaba de eclodir mais uma briga entre árabes e judeus. O pior é que ambos estão certos. Todos têm suas questões a resolver. Mas não sabem como ou não há como. Uma coisa que queria deixar claro é que não quero propor uma nova religião. Não quero ser Deus. Não tenho essa pretensão. Sou um humilde Hong Kong Fu da poesia. Quero apenas dar a minha contribuição para melhorar a vida aqui e agora. Não gosto de sectarismos e de gente que fica bajulando novos deuses. Cada um é seu deus. É a sua fagulha.

 

Eu, segundo o Kardec, vou para o vale dos suicidas. Eu tentei o suicídio aos 23 anos. Tomei um vidro de Amplictil. Uma cartela toda e não morri. Considero uma das maiores burradas que já fiz. Prefiro achar que depois dessa existência só exista o paraíso para todos, já que viver é muito difícil. Viver faz mal a saúde.

 

 

FR - Você tem um livro de poesia publicado. Tentou a publicação de Todos os cachorros são azuis por muito tempo, conseguiu o patrocínio da Petrobras e o interesse da editora 7Letras. Como é que você vê a carreira de escritor no Brasil? A sua e a de contemporâneos, de caras que você entrevistou e conhece. Como é essa batalha, para publicar e divulgar a sua literatura? E o que você almeja ou ambiciona para os seus livros, como quer que eles cheguem aos leitores?

 

RSL - O ofício de escritor não pode ser encarado como carreira. Eu pelo menos não vejo assim. É uma carreira se você quiser fazer concessões e eu não quero. Pretendo escrever o que quero escrever e da forma que quero. Não me preocupo em vender. Não sou Paulo Coelho. Nunca quis ser escritor profissional e fazer literatura descartável, se é que isso é Literatura. O que aconteceu com meu livro foi algo extraordinário. Consegui uma bolsa para poder escrever e aumentar o livro. Dar outro acabamento. Colocá-lo como queria. Claro que dinheiro importa. Mas não fui pelo dinheiro. Fui pela possibilidade de publicar e dei sorte de pegar uma banca que gostou dos Cachorros Azuis. Não acredito que seja possível — sem fazer concessões muito grandes — conseguir ser um escritor profissional. O ideal é ter uma profissão e ser escritor, para ter liberdade. Sou contra o curso de Jornalismo apesar de ter me formado em 1988. Faz vinte anos. O curso de Jornalismo deveria ser de pós-graduação. O cara se formava em economia e faria jornalismo. Medicina. Educação física. Direito. Letras. Creio que em seis meses, se o cara for bom, aprenderá a fazer um lead e um sub-lead. Acho também que essa seria a opção, como está sendo para muitos: ser jornalista e escritor, ser médico e escritor, ser professor de letras e escritor. É assim que encaro a questão. Viver de literatura e escrever por obrigação não está nos meus planos.

 

A batalha no Brasil é grande. Temos mais escritores que leitores. Os espaços na mídia são pequenos. Só para pensar: existem 4 programas (se tanto) na TV a cabo destinados à literatura. Ora, deveria existir um canal 24 horas por dia com literatura. Há espaço para culinária. Para música. Noticiário jornalístico. Até política. Mas veja o absurdo: não há um CANAL LITERATURA. O que esperar então?

 

As coisas são ainda mais difíceis pra mim que não circulo. Eu sou recluso e não saio de casa. É um drama. Dependo dos outros.

 

Gostaria que meus livros chegassem como livros de arte. Que fossem degustados e não devorados. Que enriquecessem em alguma coisa a vida das pessoas. Não gostaria de vender ilusões falsas e sim alucinações verdadeiras.

 

 

FR - Poderia listar alguns escritores contemporâneos que você considera fundamentais para ler e entender um pouco do que é o mundo hoje, caras que estão dizendo e denunciando coisas a respeito do ser humano?

 

RSL - O escritor de minha geração que mais admiro, falando da prosa, é o Ademir Assunção. Acho Máquina Peluda e Adorável Criatura Frankstein livros excepcionais. Mas há uma outra geração da qual gosto muito. Posso citar João Gilberto Noll, Wilson Bueno e Sérgio Sant'Anna. Formam uma trindade para mim. Santíssima (risos). Existem escritores mais velhos que admiro muito. Rubem Fonseca é um deles. Dalton Trevisan, outro. Valêncio Xavier vive em mim. Houve mais alarde com a morte do touro Bandido [da novela das 8] do que com a morte de Valêncio, que é um grande escritor. Quase ia me esquecendo do Sebastião Nunes. São muitos. Devo ter esquecido vários. Mas prefiro citar, que ficar em cima do muro, fazendo média. Média é bom só como café da manhã na padaria.

 

 

 

[ Publicada no Jornal Vaia em 2009. ]

 

 

 

 

 

Fernando Ramos é o editor do Jornal Vaia, de Porto Alegre.

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